A França ao Meio

Uma interessantíssima reportagem sobre a real situação das eleições francesas

 

por Gianni Carta

O direitista Sarkozy larga na frente no segundo turno, mas a socialista Ségolène sonha em atrair os votos do centro

Sophie Delcenserie, advogada e professora universitária de 35 anos, está acostumada a votar nos ecologistas no primeiro turno, mas, no domingo 22, optou pela candidata socialista. Com 25,83% dos votos, Ségolène Royal, de 53 anos, disputará a Presidência no segundo turno, dia 6, contra o líder da conservadora União por um Movimento Popular (UMP), Nicolas Sarkozy, de 52 anos. Sarko, como é conhecido, obteve 31,11% dos votos. Uma recente pesquisa da TNS-Sofres prevê 51% dos votos para ele, no segundo turno, e 49% para Ségo.

“Foi um voto útil”, observa Sophie. “Em 2002, ao votar em partidos menores, no primeiro turno, acabamos deixando Jean-Marie Le Pen (o candidato da extrema-direita) passar ao segundo turno.” Ela toma mais um gole de café num bar do Cinquième Arrondissement, bairro central de Paris que abriga a Sorbonne e é habitado por uma classe média alta, intelectuais, professores universitários e alunos.

Sophie acrescenta: “Mas, sabe, o programa de Ségo me agrada. Uma de suas prioridades é o ensino público e a pesquisa. Ela também promete criar empregos para os jovens e pretende aumentar o consumo de energias renováveis para 20%. Além disso, a visão de uma mulher poderá fazer bem à França. Agora, não sei com que dinheiro ela vai aumentar o salário mínimo em 20%, para 1,5 mil euros. E não acredito que ela reduzirá o orçamento do Palácio do Eliseu, como promete”. Sophie abre um sorriso. “Afinal, ela é bem gauche caviar.”

Ironicamente, a posição política da advogada é atípica no bairro, onde a maioria dos habitantes votou em Sarkozy. Outros 23% dos moradores do Cinquième ficaram com François Bayrou, líder centrista de 56 anos da União pela Democracia Francesa (UDF). Ele propõe a introdução de um sistema proporcional e, para passar a imagem de homem simples que fala a língua do povo, posa para as câmeras ao lado de tratores e vacas. A posição nem de direita nem de esquerda de Bayrou, que enerva vários políticos e cidadãos, surtiu efeito em nível nacional: ele ficou em terceiro lugar, com 18,5%.

As aparências do mapa eleitoral após o primeiro turno enganam. Veja o caso de Paris. A parte oeste, mais abastada, votou maciçamente em Sarkozy. A parte leste, popular, votou em Ségolène. Ou seja, tudo leva a crer que Paris é uma cidade dividida entre esquerda e direita. Mas não é bem assim. Na capital, Bayrou obteve 20,73%, 2 pontos porcentuais acima de sua média nacional. Só em três dos 20 bairros da cidade ele não recebeu votos.

Ao mesmo tempo, partidos outrora fortes como o Verde e o Partido Comunista Francês (PCF) sofreram queda vertiginosa nos escrutínios ao longo dos anos. Entre 1945 e 1958, o PCF era o primeiro partido político da França. Até 1970 era o primeiro partido de esquerda. E nas presidenciais de 1981 Georges Marchais levou 15,48%. Hoje, a fatia de Marie-George Buffet, líder do PCF, é de 1,93%. Os verdes ficaram com 1,57%. Não muito longe ficou um inexpressivo partido de caçadores, com pouco mais de 1%. O próprio Le Pen, de 79 anos, que foi ao segundo turno em 2002 com o voto de um considerável contingente de ex-comunistas e reacionários da França profunda, desta feita não passou dos 10,44%.

Diante do cenário rocambolesco, como explicar os humores ideológicos e políticos dos franceses? Parte do eleitorado tem pendores extremistas e socialistas, mas a maioria inclina-se para a direita. A Frente Nacional, de Le Pen, perdeu pontos porque o cenário político francês foi “lepenizado”, como se costuma dizer.

O principal dos lepenizados responde pelo nome de Sarkozy. O ex-ministro do Interior não escondeu o intuito de buscar os eleitores da Frente Nacional. A própria Ségolène adotou estratégia semelhante. Consta do programa socialista a proposta de enviar os adolescentes delinqüentes para campos militares.

A família, ressaltou a CartaCapital o cientista político da Sorbonne Jacques Gerstlé, “é outro tema de direita” adotado por Ségo. Mais: ela sugeriu que os franceses deveriam ter uma bandeira tricolor em casa. Em momento talvez de delírio diante da massa, comparou-se a Joana D’Arc, a heroína francesa do século XV que liberou Órleans dos ingleses, um símbolo até há pouco tempo usado por Le Pen. Mesmo assim, ao que tudo indica, essas foram apenas táticas para chegar ao segundo turno, visto que durante momentos da campanha Ségo e Bayrou emparelharam. Segundo Gerstlé, o programa de Ségolène é nitidamente de esquerda.

Sarko, porém, foi mais eficaz em se aproximar do eleitorado de extrema-direita. Embora defenda idéias reacionárias, como ficará claro neste texto, algumas delas, imagina-se, foram utilizadas, como no caso da rival, para vencer o primeiro turno. Na edição da quarta-feira 25 do semanário satírico Le Canard Enchaîné, conhecido pelos furos e por arrancar longas gargalhadas dos leitores, há uma correta avaliação da campanha de Sarkozy.

Diz a publicação: “Ele roubou todas as idéias do Le Pen. A caça aos sans-papiers (imigrantes sem documentos). As leis cada vez mais duras sobre a imigração, a delinqüência… a designação dos culpados: os desempregados (forçosamente preguiçosos), aqueles que recebem vantagens sociais (forçosamente parasitas), os jovens dos subúrbios (forçosamente indivíduos desprezíveis). Sua mania de querer colocar todo mundo na prisão por qualquer motivo. Sua maneira de atiçar medos, todos os medos, dos delinqüentes, dos clandestinos, dos turcos, dos terroristas. Tudo isso com a finalidade de colocar as ‘pessoas honestas’ contra as outras (da esquerda). E vejam: tudo isso se inscreve no campo republicano”.

O resultado é que vários eleitores da FN decidiram por um voto que consideraram útil. Visto que Le Pen tinha escassas chances de ir ao segundo turno, simpatizantes do líder de extrema-direita depositaram a confiança em Sarko. O que explica a guinada, por parte dos operários, de pequenos burgueses da França profunda, e de pequenos empresários, para a direita mais moderada de Sarko.

Surpreendente foi o fato de outra faixa da sociedade ter sido seduzida por Sarkozy, os intelectuais. Os sucessores do filósofo Jean-Paul Sartre (1905-1980) fizeram mais: apoiaram publicamente Sarko. Um deles é Max Gallo, historiador demasiado prolífico para ser levado a sério. No seu site na internet, Gallo disse se orgulhar de viver ao lado do Panthéon, no Cinquième, onde estão enterrados “grandes homens” como Victor Hugo (1802-1885), sobre quem ele publicou recentemente uma volumosa biografia. Ironicamente, Hugo fez o percurso inverso de Gallo: de conservador, passou a defender idéias de esquerda.

O filósofo André Glucksmann foi claro em artigo no diário Le Monde, de 30 de janeiro, intitulado “Por que eu escolhi Nicolas Sarkozy”. No dia seguinte, outro filósofo, Alain Finkielkraut explica por que é sarkozista no diário conservador Le Figaro. Pierre-André Taguieff é outro filósofo a receber a alcunha de “neo-reacionário” pela semanal Le Nouvel Observateur, que dedicou um artigo de capa aos intellos. Estranhamente, Bernard-Henri Lévy, que faz mais sucesso com as aparições na CNN que com seus livros, parece ser o único da leva de filósofos, bordejando a mediocridade, a apoiar Ségolène.

Outro que consta da lista de apoiadores de Sarko é Marc Weitzmann, jornalista e escritor de talento. Weitzmann, que, após uma visita ao Brasil anos atrás, contou a este repórter ter ficado chocado com o “reacionarismo” das elites brasileiras, assim defendeu sua opção: “Nicolas Sarkozy é o mais coerente, o mais estruturado, e seu discurso é o mais bem ancorado tanto no mundo real quanto na sociedade contemporânea”. Recentemente, Weitzmann foi enviado aos Estados Unidos pelo Le Monde para fazer um artigo sobre os neo-reacionários na política. Produziu um artigo indecifrável, embora com algumas passagens com valor literário. O jornalismo francês, como sua filosofia, está em franca decadência.

A direita ganhou também porque a esquerda, ao contrário daquela sob François Mitterrand (1916-1996), não está mais unida. É verdade que os candidatos de pequenos partidos antiglobalização, como o de José Bové, pediram para os eleitores votarem contra Sarkozy. Como é fato que, em 2002, os ex-premier socialista Lionel Jospin, derrotado no primeiro turno, pediu o apoio dos simpatizantes ao atual presidente Jacques Chirac, o que permitiu a derrota de Le Pen. Mas não se sabe se isso será suficiente agora. Existem discórdias importantes no seio do próprio PS. Para vencer as eleições, Ségolène precisa do apoio de Bayrou. E considera até oferecer ministérios para a UDF, mas vários dos chamados “elefantes” – a velha-guarda do PS – não estão de acordo com esse tipo de negociação, e muito menos em dividir o governo com Bayrou. Por enquanto, o centrista optou pela neutralidade.

Ségolène tenta copiar o modelo italiano, em que dois partidos, democratas de esquerda (DS) e Margherita, há poucas semanas formaram o Partido Democrático Italiano. O centrista Romano Prodi, chefe do governo italiano, apóia Bayrou, “o político francês mais pró-europeu”, e é favorável à coalizão PS-Partido Democrata (Bayrou rebatizou, na quarta-feira 25, a UDF de PD), na França. O premier Romano Prodi anunciou apoio a Ségolène no segundo turno. Mais: fará um discurso via satélite no próximo comício da candidata socialista.

Segundo um dos assessores da candidata, Ségolène venceria o segundo turno se conquistasse 50% dos eleitores de Bayrou. Mas a mais recente sondagem de intenções de votos da Ipsos-Dell indica que 39% dos eleitores de Bayrou votarão em Ségo, 35% em Sarko, enquanto 26% se absterão ou, por enquanto, preferem não se exprimir. Quanto à relação entre Bayrou e Sarkozy, o ex-ministro do Interior se recusa a negociar, visto que o centrista o criticou duramente em uma coletiva para a imprensa: “Nicolas Sarkozy, por meio de sua proximidade com os círculos empresariais e donos da mídia, por meio de seu prazer em intimidar, fazer ameaças, concentrará todos os poderes no Eliseu de uma forma nunca vista”.

Não se pode descartar que a França, onde as eleições sempre transcorrem em clima de paixão ideológica, começa a oscilar para o centro do tablado político, como acontece em outros países da Europa. Segundo analistas, um terço dos Bayrouistas se declara de esquerda, mas não quer votar em Ségo. Um terço seria formado por uma linha gaullista que prefere não votar em Sarko. Claro, no novo contexto essas duas fatias votarão provavelmente em massa no candidato de seus partidos. A maneira como o terço restante se portará em 6 de maio é uma incógnita.

Sentada em um bar em Montparnasse, Katia A., mãe solteira de 33 anos, diz que ainda não escolheu. “Estou desiludida. A França que vemos na superfície é o paraíso, mas o dia-a-dia é um inferno”, diz. Formada em filosofia, Katia está desempregada e recebe auxílio social do governo chamado de RMI (Revenue Minimum d’Insertion), de 500 euros mensais, mais 100 euros para cada uma das duas filhas. O apartamento de 30 metros quadrados é pago pelo governo. “O certo seria acabar com todas as ajudas e incentivar o trabalho, dar um pouco mais de flexibilidade à economia num contexto onde o Estado fornece educação e saúde gratuitas, como agora”, pondera. “Mas não acho emprego, e se eu fizer pesquisa ganharei uma ninharia.”

De fato, a França vai de mal a pior. Tem o crescimento mais lento da Europa, de 2%. O nível de desemprego é de 9%, e o de jovens de menos de 25 anos atinge 22%. Katia diz que talvez vote em Sarkozy. “Não gosto da pessoa, sei que ele não vai fazer nada, mas ao menos espero que ele crie um movimento, provavelmente negativo. Os filhos e netos de imigrantes que ele chamou de ‘escória’ em 2005 durante as manifestações nos subúrbios que varreram a França vão começar uma guerra civil. Infelizmente, é somente quando se destrói algo que se pode reconstruir”, reflete a desempregada. Sophie, a advogada, concorda: “Com Sarko teremos uma guerra civil. Eu jamais votaria nele”.

fonte: Carta Capital (27.04.07)

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